Fiocruz Minas promove encontro sobre violências de gênero, saúde e direitos das mulheres

05/05/2026

Nos dias 27 e 28 de abril, a Fiocruz Minas sediou o Encontro Internacional Violências, Gênero e Saúde, reunindo pesquisadoras(es), gestoras(es) e especialistas do Brasil e do exterior para discutir estratégias de enfrentamento às violências de gênero em articulação com políticas públicas de saúde e direitos das mulheres. Realizado pelo Grupo de Pesquisa Violências, Gênero e Saúde, o evento teve como proposta promover o intercâmbio entre experiências locais e internacionais, articulando produção científica, vigilância em saúde, políticas públicas e perspectivas interseccionais.

A abertura foi conduzida pela pesquisadora Paula Bevilacqua, coordenadora do Grupo de Pesquisa Violências, Gênero e Saúde (VGS), que destacou a importância de consolidar espaços de reflexão crítica e cooperação internacional para enfrentar desigualdades estruturais que impactam diretamente a saúde das mulheres.

A primeira mesa, realizada na tarde do dia 27, abordou a mortalidade e a vigilância do óbito de mulheres no Brasil e em Moçambique. O pesquisador Amílcar Magaço apresentou sua experiência de doutorado no Instituto Suíço de Saúde Pública e Tropical, discutindo como o pensamento sistêmico pode contribuir para qualificar registros de mortalidade em Moçambique. Sua exposição destacou a baixa cobertura das estatísticas demográficas e sanitárias e o papel central das famílias na produção de dados, evidenciando a importância de sistemas mais robustos para orientar políticas de saúde.

Na sequência, a médica e pesquisadora Sônia Lansky, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trouxe uma análise sobre mortalidade materna e infantil, discutindo desigualdades raciais e de classe que atravessam esses indicadores. A pesquisadora destacou causas evitáveis de mortes de mulheres, problematizou a epidemia de cesarianas no Brasil e defendeu a necessidade de uma reforma obstétrica comprometida com equidade e direitos reprodutivos.

Representando a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, Aline Machado Caetano apresentou um panorama da vigilância dos óbitos de mulheres no estado, apontando desafios como o preenchimento inadequado das declarações de óbito e a alta rotatividade de profissionais nas regionais de saúde. Apesar dos obstáculos, ressaltou avanços na melhoria da qualidade dos dados e na consolidação de mecanismos de monitoramento. A mediação foi de Isabella Vitral Pinto, do VGS.

Violência de gênero, prevenção e interseccionalidade

Na manhã do dia 28, a segunda mesa concentrou-se nas relações entre prevenção, vigilância e promoção da saúde. Amanda Damasceno Pereira Duarte, da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, apresentou a experiência da capital mineira na vigilância das violências de gênero, detalhando o crescimento das notificações e o fortalecimento da articulação entre vigilância epidemiológica, assistência e rede de cuidado. Destacou ainda a produção de mini boletins territoriais como ferramenta estratégica para subsidiar ações locais.

Carmen Sant Fruchtman, pesquisadora sênior do Instituto Suíço de Saúde Pública e Tropical (Swiss TPH) e doutoranda da Fiocruz Minas, aprofundou o debate sobre pensamento sistêmico, enfatizando que uma abordagem interseccional amplia a compreensão sobre violência de gênero ao incorporar relações de poder, desigualdade e múltiplas vulnerabilidades. Para a pesquisadora, respostas eficazes exigem não apenas mudanças técnicas, mas transformações políticas nos sistemas de saúde.

Encerrando a mesa, a pesquisadora Polyana Aparecida Valente, do grupo Pesquisa Clínica e Políticas Públicas do IRR, discutiu a interseccionalidade a partir das contribuições de Patricia Hill Collins, ressaltando que gênero, raça e classe não operam como camadas isoladas de opressão, mas como estruturas complexas e articuladas. Ela também destacou que esses sistemas produzem resistência por meio da memória, arte, redes de apoio e mobilização coletiva. A mediação foi conduzida por Kate Rocha, do VGS.

Direitos humanos, políticas públicas e populações vulnerabilizadas

Na tarde do dia 28, a terceira mesa abordou direitos humanos e saúde das mulheres a partir de múltiplos contextos sociais. Agda Marina Moreira, do grupo de Políticas Públicas e Direitos Humanos em Saúde e Saneamento da Fiocruz Minas, apresentou sua experiência em pesquisas participativas com comunidades quilombolas, ressaltando a importância de construir investigações em diálogo com os territórios e de considerar dimensões como gênero, religiosidade e contexto político.

A pesquisadora Ana Carolina Dantas, do grupo de Políticas de Saúde e Proteção Social da Fiocruz Minas, discutiu políticas públicas voltadas à população em situação de rua, com foco específico na experiência de mulheres, abordando processos de desumanização, vulnerabilização e a necessidade de respostas integradas no SUS e na Rede de Atenção Psicossocial.

Stephanie Khoury, doutoranda em Epidemiologia Materno-Infantil no Instituto Suíço de Saúde Pública e Tropical, apresentou pesquisa sobre aleitamento materno exclusivo em comunidades de baixa renda de São Paulo, destacando barreiras econômicas, físicas e socioculturais que dificultam a amamentação, além de discutir o potencial de programas de transferência social como estratégia de promoção da saúde materno-infantil.

Amanda Arantes Perez, da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, encerrou a programação com uma análise sobre a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Mulheres, enfatizando o papel das políticas públicas nacionais e municipais e do SUS no enfrentamento da violência e na garantia da saúde como direito. A mediação ficou a cargo de Ana Clara Franco, do VGS.

Ao longo dos dois dias, as discussões mostraram que enfrentar as violências de gênero requer abordagens integradas, interdisciplinares e internacionalmente articuladas.

 

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