14/04/2026
A Fiocruz Minas abriu a programação do Abril Indígena com a aula aberta Bem Viver e Medicinas Indígenas: cosmologias, território e cuidado, realizada na tarde dessa segunda-feira (13/4), no auditório da unidade. O encontro reuniu estudantes, pesquisadores e convidados e teve como ponto central as reflexões conduzidas pela psicóloga e mestranda Drika Xakriabá e pelo professor e liderança indígena André Baniwa, que compartilharam experiências, saberes tradicionais e perspectivas sobre o bem-viver, reforçando o protagonismo indígena na produção de conhecimento.
À frente da organização do evento, o pesquisador Alberto Mesaque celebrou a presença expressiva de estudantes e ressaltou a importância da iniciativa. Segundo ele, a programação deste ano reforça o protagonismo indígena e valoriza a ciência produzida nos próprios territórios. “É uma honra compartilhar essa atividade. O Abril Indígena vem com ações ao longo de todo o mês, dentro da Fiocruz e também em escolas, com participação de bolsistas da iniciação científica e da pós-graduação”, destacou. Ele também enfatizou que o Abril Indígena é uma iniciativa da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), e que, na unidade, a realização das atividades se deve à participação de muitas pessoas que integram a comissão organizadora e também ao apoio da direção.
A diretora da Fiocruz Minas, Cristiana Brito, deu as boas-vindas ao público e destacou a importância de transformar o mês de abril em um período contínuo de debates. Para ela, a principal novidade desta edição é justamente o protagonismo indígena na construção da programação. “Essa é uma diferença fundamental. É uma construção coletiva, com muitas pessoas envolvidas, e isso torna o processo ainda mais rico”, afirmou. Cristiana também ressaltou a relevância das ações em escolas e reforçou o compromisso institucional com a diversidade. “Quanto mais diversidade, mais rico o nosso ambiente. Trabalhamos com um conceito ampliado de saúde, e o ‘bem-viver’, que nomeia nosso programa institucional, é uma referência importante, inspirada em um conceito indígena que valoriza a vida em comunidade e a relação com o ambiente”, disse.
Abrindo as apresentações, o professor André Baniwa iniciou com uma saudação em sua língua e se apresentou como um “tradutor” entre diferentes sistemas de conhecimento. Liderança indígena desde a década de 1990, ele compartilhou reflexões a partir da experiência do povo Baniwa, destacando que o conceito de bem-viver foi sistematizado a partir de um amplo processo coletivo, que reuniu lideranças, estudantes e pesquisadores. “O bem-viver é como uma meta da vida, difícil de manter. É uma busca constante, que envolve estar preparado para as dificuldades”, explicou.
Ao detalhar esse conceito, Baniwa apresentou o bem-viver como um sistema que integra dimensões social, ambiental, política e espiritual. Entre os princípios que orientam a vida coletiva estão o amor como tecnologia social, a reciprocidade, o respeito às hierarquias, a harmonia comunitária e o compromisso com o trabalho bem feito. Nesse contexto, o território ocupa lugar central: “Território é vida”, afirmou, ao explicar que rios, florestas, roças e lugares sagrados compõem, ao mesmo tempo, a base material e espiritual da existência indígena.
O pesquisador também destacou que a organização social e os sistemas de conhecimento dos povos indígenas foram profundamente impactados pelo processo de colonização, que interrompeu práticas e invisibilizou tecnologias próprias de cuidado. “Temos nossas tecnologias de cuidado. O que para vocês é internet, para nós são as plantas”, comparou. Ele explicou que o sistema de medicina Baniwa envolve diferentes categorias de especialistas e práticas integradas, como o uso de plantas medicinais, benzimentos, rituais, cuidado com a alimentação e a relação com a água, além de uma compreensão ampla das causas das doenças, que incluem dimensões espirituais, ambientais e sociais.
Outro ponto central da apresentação foi a ideia de corpo-território, que expressa a inseparabilidade entre o cuidado com a vida humana e o manejo do ambiente. Segundo Baniwa, a sustentabilidade depende da integração entre trabalho, ética e território, organizada em sistemas coletivos que garantem a soberania alimentar e o equilíbrio ecológico. “Nada é feito de qualquer jeito. Tudo tem significado”, ressaltou, ao explicar que o trabalho, na perspectiva indígena, envolve planejamento, disciplina e responsabilidade coletiva.
Por fim, Baniwa chamou atenção para desafios contemporâneos, como as mudanças climáticas, o risco de perda de conhecimentos tradicionais entre gerações, a assimetria nas políticas públicas e a predominância de uma ciência monocultural. Como caminhos, defendeu o fortalecimento da autonomia indígena, a co-governança e o diálogo intercultural entre diferentes sistemas de conhecimento. “O planeta precisa do bem-viver. Não é possível pensar apenas em lucro, porque isso leva à destruição”, alertou.
Povo Xakriabá- A psicóloga e mestranda Drika Xakriabá trouxe uma reflexão marcada por vivências pessoais e coletivas, articulando identidade, memória e produção de conhecimento. Ao se apresentar em sua língua indígena e compartilhar seus diferentes nomes, destacou que esse gesto carrega a história de seu povo. “Quando eu trago meus três nomes, eu trago a história do meu povo”, afirmou, ao lembrar que sua geração vivenciou a negação desse direito, como parte de um processo mais amplo de apagamento cultural.
Segundo ela, uma das primeiras violências sofridas pelos povos indígenas foi justamente a negação de sua própria história, o que gerou medo e silenciamento entre os mais velhos. Nesse contexto, a juventude assume um papel estratégico na retomada dos saberes tradicionais. “Somos essa ponte que busca o conhecimento com os mais velhos e transmite para as futuras gerações”, explicou.
Ao abordar o conceito de bem-viver, Drika destacou que ele vai além de definições simplificadas ou usos superficiais. Para ela, trata-se de viver em comunidade em um ciclo harmônico que envolve não apenas os seres humanos, mas também animais, plantas e as dimensões espiritual e material da existência. “O bem-viver é esse equilíbrio, esse diálogo constante com tudo que nos rodeia”, afirmou. Segundo a pesquisadora, a colonização rompeu esse ciclo, impondo referências externas e redefinindo práticas culturais. “A imposição já foi violenta, então a desconstrução precisa ser feita com muita sabedoria”, ponderou.
A espiritualidade aparece, em sua fala, como eixo central para a manutenção da vida e da saúde. Drika destacou o papel dos pajés como mediadores entre diferentes dimensões e como referências fundamentais na produção de conhecimento. “Eu fiz cinco anos de psicologia, mas quem me ensina é o pajé”, afirmou, ao defender que o diálogo entre saberes tradicionais e acadêmicos deve ocorrer sem hierarquização. Nesse sentido, ela se define como mediadora entre esses campos, reconhecendo que nem todos os conhecimentos são plenamente traduzíveis. “Não é só a palavra, é o sentimento, o contexto. Nem tudo é possível traduzir”, explicou.
A pesquisadora também chamou atenção para os impactos da perda de práticas culturais no campo da saúde, como no caso dos rituais de luto. Segundo ela, a substituição dessas práticas por modelos externos pode gerar desequilíbrios espirituais e adoecimento. “A violação do luto causa um desequilíbrio que se espalha”, afirmou, ao criticar leituras simplificadas sobre questões como o suicídio em comunidades indígenas. Para ela, é fundamental reconhecer a complexidade desses processos e abrir espaço para o diálogo com os sistemas de conhecimento dos próprios povos.
Ao final, Drika reforçou que a retomada da história e da cultura é também um caminho para a autonomia e para o fortalecimento das práticas de cuidado. “Não existe prática eficaz em saúde se não for uma prática que dialogue com os povos indígenas”, concluiu.
Ariponã- Também foram convidadas ao palco as integrantes do Grupo Ariponã: Irisnã, juntamente com sua mãe, Tamikuã, da etnia Pataxó, e as estudantes Melissa e Marli Isabele. O grupo desenvolve um projeto voltado para valorização da língua e da cultura indígena. “Ariponã significa ‘aprender’, na língua indígena do povo Pataxó, o Patxohã, que significa ‘língua de guerreiro’, por resistir desde a invasão portuguesa, em 1500”, explicou Tamikuã.
Irisnã e Tamikuã lembraram os impactos da colonização sobre os povos originários, destacando que, antes da chegada dos europeus, mais de mil línguas indígenas eram faladas no território brasileiro, enquanto hoje restam cerca de 295, o que representa também a perda de histórias e culturas.
Tamikuã também relatou a trajetória da família, que saiu da aldeia Mata Medonha, em Santa Cruz Cabrália (BA), e se estabeleceu em Betim (MG), onde enfrentou desafios de adaptação. Segundo ela, o contato com um contexto urbano muito diferente levou, inicialmente, a um processo de retração. A mudança começou quando Irisnã decidiu, em um mês de abril, ir à escola com seus grafismos e vestimentas tradicionais, enfrentando situações de preconceito. “Perguntaram se eu sabia que ela estava rabiscada”, relembrou.
A partir desse episódio, um professor reconheceu a importância de levar o tema para o ambiente escolar, o que deu origem ao Grupo Ariponã. Como desdobramento, o projeto desenvolveu um leitor de cartões digital, com uso de impressora 3D e robótica, voltado à preservação e ao ensino do Patxohã, língua retomada do povo Pataxó.
Ao final das apresentações, a plateia fez perguntas aos convidados, que responderam às dúvidas e compartilharam ainda mais conhecimentos. A programação do Abril Indígena da Fiocruz Minas segue ao longo do mês com uma série de atividades, como oficinas, mesas-redondas e ações em escolas, voltadas à promoção do diálogo intercultural e à valorização dos saberes dos povos originários.
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