Fiocruz Minas abre ano letivo com debate sobre o papel estratégico da ciência no Brasil

08/04/2026

A Fiocruz Minas realizou, nessa terça-feira (7/4), a aula inaugural que marcou o início do ano letivo dos programas de pós-graduação da unidade. Com o tema Boa Ciência, Brasil Forte, o encontro foi ministrado pelo pesquisador Marcio Lourenço Rodrigues, da Fiocruz Paraná, e reuniu estudantes, docentes e gestores da instituição, presencialmente e on-line.

Na abertura, o vice-diretor de Ensino, Informação e Comunicação, Sérgio Viana Peixoto, deu as boas-vindas aos participantes e destacou que o início de um novo ciclo acadêmico exige renovação de expectativas e compromisso institucional. “A cada ano, a gente tem que renovar as nossas expectativas, as nossas perspectivas e repensar algumas direções”, afirmou. Ele ressaltou que estar na Fiocruz é um privilégio que implica responsabilidade com a sociedade e com o SUS, e enfatizou que a formação acadêmica vai além da tese. “Vir aqui, fazer disciplinas e olhar para a sua tese é muito pouco para a formação de um cientista e de um cidadão. É preciso que os estudantes vivenciem a instituição e participem ativamente dos espaços coletivos”, disse. Sérgio também destacou a importância da divulgação científica e do enfrentamento à desinformação, reforçando que “não se faz ciência sem democracia”.

O coordenador adjunto do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Pedro Augusto Alves, propôs uma reflexão sobre o reconhecimento da atividade científica. “Você se valoriza no que você faz? Quem te valoriza?”, questionou, ao convidar estudantes e docentes a pensarem sobre o próprio papel na ciência. Segundo ele, a escolha do tema da aula inaugural busca justamente reforçar a valorização do trabalho científico no Brasil, mesmo diante de desafios, e marcar o início do ano letivo como um momento de reafirmação de compromissos com a produção de conhecimento.

A coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Taynãna César Simões, ressaltou o caráter coletivo e interdisciplinar da formação na Fiocruz e o compromisso com a saúde pública. “Vocês agora fazem parte de uma comunidade que compartilha valores, inquietações e um compromisso permanente com a saúde da população”, afirmou. Ela destacou que a aula inaugural conjunta reflete a necessidade de integração entre áreas distintas, como Saúde Coletiva e Ciências da Saúde, diante de desafios complexos.

Encerrando a mesa, a vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Marly Cruz, destacou o papel estratégico da pós-graduação na produção científica e na transformação social. Ela afirmou que programas de excelência se caracterizam também pelo impacto social e pela relação com a sociedade. “Não adianta a gente produzir conhecimento e ele ficar encastelado”, disse, ao defender a ampliação do acesso e da divulgação científica. A vice-presidente ressaltou ainda que ensino, pesquisa e comunicação são indissociáveis e que a formação na Fiocruz deve estar conectada aos desafios contemporâneos, como desigualdades sociais e crises globais, preparando profissionais comprometidos com a transformação social.

Palestra- Durante a aula inaugural, o pesquisador Marcio Lourenço Rodrigues apresentou uma análise abrangente sobre o papel da ciência no Brasil, combinando dados recentes e reflexões críticas. Logo no início, destacou a centralidade da pós-graduação no sistema científico nacional. “Cerca de 80% do conhecimento científico produzido no Brasil vem da pós-graduação”, afirmou, ressaltando o protagonismo dos estudantes nesse processo. Ao mesmo tempo, o pesquisador chamou atenção para os desafios enfrentados por quem segue essa trajetória. “Embora haja uma percepção positiva da pós-graduação no país, estudos apontam impactos significativos na saúde mental dos estudantes. Fazer pós-graduação é muito difícil”, disse mencionando evidências sobre o aumento de sofrimento psíquico nesse grupo.

O pesquisador também discutiu a relação entre ciência e sociedade, destacando que há um reconhecimento amplo do papel da ciência na resolução de problemas concretos. Para ilustrar, citou exemplos históricos da própria Fiocruz, como o trabalho de Carlos Chagas, evidenciando como a produção científica pode gerar impactos diretos na população.

Outro ponto central da palestra foi o debate entre ciência básica e aplicada. Marcio argumentou que essa divisão não deve ser vista como oposição. “Desconectar uma coisa da outra não é bom negócio”, afirmou. Ele explicou que avanços fundamentais frequentemente dão origem a aplicações práticas, como no caso de medicamentos e vacinas, e que esse processo é contínuo, articulando descoberta e aplicação.

Ao abordar o cenário brasileiro, o pesquisador afirmou que o país ocupa posição de destaque na produção científica mundial, mas enfrenta dificuldades no campo da inovação. Segundo ele, a queda nos investimentos a partir de 2016 impactou diretamente a produção acadêmica.

Marcio também ressaltou que o Brasil ainda apresenta limitações estruturais que dificultam a transformação do conhecimento em inovação, como entraves regulatórios e de infraestrutura. Ainda assim, destacou o potencial do país, especialmente quando há investimento e integração entre áreas. Ele enfatizou ainda a importância da colaboração internacional, apontando que pesquisas realizadas em parceria tendem a ter maior impacto e visibilidade.

A palestra também abordou desafios do sistema científico global, como os altos custos de publicação e a proliferação de revistas predatórias. “Isso é inadmissível”, afirmou, ao criticar o modelo em que pesquisadores precisam pagar valores elevados para divulgar resultados muitas vezes financiados com recursos públicos.

Ao encerrar, Marcio reforçou o compromisso com uma ciência de qualidade e com impacto social. “A gente precisa de boa ciência para melhorar a saúde da população”, concluiu, ressaltando que o fortalecimento da ciência é essencial para o desenvolvimento do país.

 

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