Fiocruz Minas e lideranças indígenas debatem impactos da mineração em territórios originários

24/04/2026

Como parte da programação do Abril Indígena, a Fiocruz Minas promoveu, nessa quinta-feira (23/4), a palestra Impactos da mineração no bem-viver em territórios indígenas, reunindo lideranças para discutir os efeitos socioambientais da atividade minerária sobre povos originários. O encontro contou com a participação de Dário Kopenawa, do povo Yanomami, e Yan Pataxó, vice-cacique da aldeia em Carmésia (MG), além de representantes da instituição.

A iniciativa integra uma agenda mais ampla que, segundo o pesquisador Bernardo Aleixo, da comissão organizadora, busca valorizar a diversidade e o protagonismo indígena na produção de conhecimentos. A programação do Abril Indígena foi pensada para ampliar o debate e fortalecer o diálogo entre ciência e saberes tradicionais.

Durante a abertura do evento, a diretora da Fiocruz Minas, Cristiana Brito, destacou a importância do espaço como ponte de interlocução. “É um privilégio promover essa troca de saberes e experiências. A Fiocruz deve ser um espaço para discussões necessárias e para dar visibilidade aos ataques sofridos pelos territórios indígenas”, afirmou. Ela também ressaltou o papel da instituição em dialogar com o Legislativo, com vistas a gerar impactos concretos na proteção desses territórios.

A diretora enfatizou, ainda, o esforço institucional em ampliar a inclusão e consolidar ações permanentes. “Faz muita diferença termos um mês dedicado ao tema, e não apenas um dia. Precisamos pensar em iniciativas que perpetuem essas discussões e fortaleçam a parceria com os territórios”, disse.

O vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Valcler Rangel, destacou que a atividade integra um esforço de cooperação com o Ministério da Saúde e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), voltado à promoção do diálogo e da construção conjunta de soluções. Segundo ele, iniciativas como essa fortalecem a troca de saberes e evidenciam a importância de valorizar o conhecimento dos povos originários. “É um privilégio conviver com uma população tão diversa, que, apesar de toda a violência histórica, segue resistindo e produzindo conhecimento”, afirmou.

Rangel destacou a necessidade de integrar diferentes visões de mundo na construção de políticas públicas. “Estou lendo um livro que traz um verbo interessante que é ‘indigenizar’. Ou seja, é preciso indigenizar nossas práticas. Essa concepção em que corpo, território e natureza estão integrados é de uma beleza e de uma efetividade muito grandes na promoção da saúde. Quando falamos em atenção integral, estamos falando de um entendimento de que vivemos em um mesmo universo, interdependente”, afirmou. Para o vice-presidente, o enfrentamento das crises ambientais, como a emergência climática, exige soluções coletivas e interdisciplinares, que considerem também os conhecimentos tradicionais.

Invasão do garimpo- Durante sua fala, Dário Kopenawa apresentou dados e relatos sobre a situação do Território Yanomami, que foi homologado em 1992 e conta com cerca de 9,6 milhões de hectares de floresta, distribuídos entre os estados de Roraima e Amazonas. A região abriga aproximadamente 30 mil pessoas, em mais de 350 comunidades, incluindo grupos em isolamento voluntário.

O líder indígena destacou que o avanço do garimpo ilegal tem provocado uma série de impactos, como desmatamento, contaminação por mercúrio e aumento de doenças. Segundo ele, o ano de 2021 registrou um dos piores cenários desde a demarcação do território.

“Os rios estão contaminados, cheios de mercúrio. A gente consome o peixe e a água. Essa é uma situação de vulnerabilidade”, afirmou. Kopenawa relatou que áreas degradadas pelo garimpo chegam a milhares de hectares e comparou as marcas deixadas na floresta a “cicatrizes na pele”.

Ele também chamou atenção para a presença de estruturas complexas dentro do território, como pistas de pouso, acampamentos e até atuação de facções criminosas. “Não é fome. As pessoas estão morrendo de doença, de contaminação. Estão morrendo de garimpo”, disse.

Entre os impactos apontados estão o aumento de casos de malária e síndrome respiratória aguda grave, além de violência, exploração sexual e perda da soberania alimentar. O líder também criticou propostas legislativas que visam regulamentar a mineração em terras indígenas. “É um projeto que só traz morte, destruição e poluição”, afirmou.

Pressão minerária- Yan Pataxó trouxe à discussão a realidade vivida por seu povo em Minas Gerais, no município de Carmésia. Ele relatou que o território, composto por quatro aldeias, enfrenta escassez hídrica e impactos decorrentes da atuação de empresas mineradoras e do avanço do agronegócio.

“Nosso território tinha cerca de 40 nascentes ativas. Hoje, muitos córregos praticamente desapareceram”, afirmou. Segundo ele, o uso intensivo de recursos hídricos por empresas tem afetado diretamente o lençol freático. “Tivemos que aprofundar nosso poço artesiano de 66 para 160 metros, e ainda assim não conseguimos captar água suficiente.”

O vice-cacique destacou que a relação com a água e a natureza é central para a cultura indígena. A escassez, segundo ele, já impacta práticas tradicionais. “Há dois anos não realizamos o batizado tradicional por falta de água”, disse.

Yan Pataxó também criticou a expansão de monoculturas, como o eucalipto, e alertou para os riscos de contaminação dos rios por metais pesados. Ele lembrou que o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, em 2019, contaminou o rio Paraopebas e, ainda hoje, o rio permanece contaminado. “Não podemos deixar que isso aconteça nos nossos territórios. Isso não mata só o rio, mata a nossa cultura”, destacou.

Ao final, reforçou a importância de preservar os territórios e a diversidade cultural. “Sem nossos recursos, o que será de nós? Precisamos manter nossa cultura viva”, afirmou.

Após as apresentações, as duas lideranças indígenas responderam a perguntas da plateia.

 

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