Fiocruz Minas celebra Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência com programação diversificada

Em comemoração ao Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, a Fiocruz Minas promoveu uma programação especial voltada ao fortalecimento do protagonismo feminino na ciência. O evento reuniu estudantes do ensino médio da Escola Estadual Caetano Azeredo, participantes do Programa Mais Mulheres e Meninas na Ciência, além de pesquisadoras, gestoras e integrantes da área de Divulgação Científica do Instituto René Rachou (IRR/Fiocruz Minas).

A iniciativa integra ações do Programa Mulheres e Meninas na Ciência, vinculado à Coordenação de Divulgação Científica (CDC), da Vice-Presidência de Informação, Educação e Comunicação (VPEIC). Ao longo do dia, as participantes acompanharam mesa-redonda, oficinas, palestra, atividades interativas e apresentações culturais, em uma programação que articulou ciência, arte e reflexão crítica sobre desigualdades de gênero.

A diretora da Fiocruz Minas, Cristiana Brito, abriu o evento destacando a importância de aproximar as meninas da instituição e de mostrar que a ciência é parte do cotidiano. “Todas as coisas que estão ao nosso redor têm um pouquinho de ciência”, afirmou, ao incentivar as estudantes a reconhecerem a ciência como um caminho possível, mas, sobretudo, como uma escolha.

Cristiana ressaltou que o objetivo do projeto não é direcionar todas as jovens para a carreira científica, mas estimular o protagonismo e a autonomia. “O nosso objetivo é que vocês tenham consciência de que podem escolher o que quiserem”, disse. Ao compartilhar sua própria trajetória, da formação em biologia à atuação como diretora na instituição, reforçou que os caminhos profissionais nem sempre são lineares e que o mais importante é manter o brilho nos olhos diante das escolhas feitas.

A diretora também abordou os desafios estruturais enfrentados pelas mulheres, tanto na vida privada quanto na vida institucional. Falou sobre desigualdade de gênero, divisão de responsabilidades familiares e o apagamento histórico das contribuições femininas na ciência. “Às vezes, você fala algo numa reunião e só é validada quando um homem repete. Isso é o que queremos romper”, afirmou. Para ela, celebrar a data é também reafirmar o compromisso da Fiocruz com a igualdade de direitos e com a valorização das mulheres que construíram e constroem a história da instituição.

A coordenadora da Divulgação Científica da Fiocruz Minas, Fabiana Lara, deu as boas-vindas às participantes e contextualizou a importância da data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para estimular a participação de meninas e mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Segundo ela, o evento foi idealizado majoritariamente por mulheres e contou com o envolvimento direto de integrantes da equipe de Divulgação Científica e do Comitê de Divulgação Científica do IRR.

Fabiana agradeceu o apoio institucional da VPEIC e da diretoria, além de destacar o trabalho das equipes responsáveis pela organização e logística. Para ela, o encontro foi pensado como um espaço de troca e inspiração. “Esse dia foi feito para vocês”, afirmou, dirigindo-se às estudantes. A programação incluiu ainda uma ação interativa com painéis e fotografias de pesquisadoras do Instituto, convidando as jovens a conhecerem as trajetórias dessas cientistas e se reconhecerem nesses exemplos.

Ao enfatizar o papel da comunicação na promoção da equidade, Fabiana reforçou que divulgar a ciência é também ampliar referências e tornar visíveis as mulheres que produzem conhecimento. “Essas mulheres representam todas as que estão aqui hoje, as que já passaram pelo Instituto e as que nos inspiram todos os dias”, destacou.

Caminhos da Ciência: trajetórias, resistência e reinvenção- A mesa-redonda Caminhos da Ciência: Mulheres, Gerações e Possibilidades reuniu três cientistas de diferentes gerações: Celina Maria Modena, Raquel Ferreira e Gabriela Maia. A proposta foi compartilhar trajetórias, desafios e inspirações, evidenciando como a presença feminina na ciência se transforma ao longo do tempo, mas ainda enfrenta barreiras estruturais.

Pesquisadora da Fiocruz Minas desde 2002, Celina Modena é doutora em ciências, graduada em medicina veterinária e psicologia, e atua na área de Saúde Coletiva. Em sua fala, destacou a importância da pesquisa qualitativa, que busca compreender narrativas, experiências e significados atribuídos pelas pessoas aos fenômenos de saúde e doença.

Ao relembrar sua entrada na universidade, em 1972, durante a ditadura militar, Celina descreveu um ambiente fortemente marcado pelo patriarcado. Em atividades de extensão rural, enfrentou resistência à participação de mulheres. “O lugar da patroa é em casa”, ouviu em uma das primeiras palestras que ministrou. A partir desse episódio, decidiu que trabalharia para garantir a presença feminina nos espaços de formação e debate.

Durante o mestrado, foi a única mulher da turma e conviveu com situações explícitas de machismo, inclusive ao conduzir pesquisas pioneiras sobre leucose bovina. Mais tarde, já na Fiocruz, desenvolveu estudos que evidenciaram a importância da escuta e do diálogo com comunidades, como em pesquisas realizadas em Jaboticatubas, nas quais investigou percepções sobre esquistossomose e os impactos do estigma midiático. “Somos seres do desejo. Se vocês têm um desejo, persigam esse desejo”, concluiu, incentivando as estudantes a persistirem.

Bióloga, tecnologista em Saúde Pública na Fiocruz desde 2013 e curadora da Coleção de Vetores e Tripanossomatídeos, Raquel Ferreira compartilhou uma trajetória marcada por desafios relacionados ao sentimento de pertencimento e ao autoconhecimento.

Vinda do interior de Minas Gerais, relatou que não se via como alguém capaz de ingressar em uma universidade pública de prestígio. Cursou, então, biologia em instituição privada e, ao longo da formação, descobriu novas possibilidades profissionais. “A gente romantiza muito as escolhas, como se todo mundo soubesse desde criança o que quer ser. Não é assim”, afirmou.

Raquel também falou abertamente sobre ter TDAH e transtorno de processamento auditivo, ressaltando a importância de reconhecer limites e potencialidades. Compartilhou ainda situações recentes de desrespeito vividas por ela e por uma estudante durante trabalho de campo, evidenciando que o machismo se manifesta de forma sutil e cotidiana. Ao abordar maternidade e carreira, destacou os desafios da conciliação e a necessidade de romper com imposições sociais. “Todo mundo tem um potencial a ser explorado. É importante se conhecer para escolher o caminho”, aconselhou.

Bióloga, doutoranda e diretora da escola de divulgação científica Potencial Biótico, Gabriela Maia trouxe uma perspectiva marcada pela origem popular e pela força das referências femininas familiares. Filha e neta de mulheres que sustentaram suas famílias em contextos adversos, foi a primeira a ingressar no ensino superior.

Gabriela contou que só conheceu a iniciação científica durante a graduação e que enfrentou inseguranças até conseguir uma oportunidade na Fiocruz. No laboratório de malária, coordenado por mulheres, encontrou referências que a fizeram acreditar na possibilidade de ocupar espaços de liderança. “Eu me vi representada. Eu posso estar ali um dia”, relatou.

Além da trajetória acadêmica, destacou sua atuação na divulgação científica, com iniciativas em redes sociais e projetos em comunidades indígenas no Amazonas, onde participou da organização de uma feira científica para estudantes do ensino médio. “Independentemente da sua origem, do seu gênero, da sua cor, vocês podem ocupar esses espaços”, afirmou, reforçando o papel da comunicação científica na ampliação de horizontes.

Programação diversificada- A programação incluiu ainda coffee break na Asfoc, com exposição de trabalhos das alunas do projeto Caminhos para a Autonomia; uma apresentação sobre Olimpíada de Saúde e Meio Ambiente da Fiocruz, ministrada por Stephanie Cabral, da OBSMA; e o jogo digital Escape Room MMC, conduzido por integrantes do Comitê de Divulgação Científica.

À tarde, foram realizadas as oficinas “Zines de Ciência: narrativas de mulheres e meninas na ciência”, com Ártemis Garrido Dias, e “Saúde mental em cores”, oficina de arte com giz pastel, conduzida por Victória Helena. A pesquisadora Rosy Isaias, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ministrou a palestra “O efeito tesoura e a sub-representação em cargos de liderança: uma conversa necessária”, abordando a redução da presença feminina à medida que se avança na hierarquia institucional.

Outra importante atividade, conduzida pela pesquisadora Zélia Profeta, foi a exibição do documentário Mulheres da Fiocruz, que retrata a trajetória de mulheres que foram fundamentais na construção da ciência e da saúde pública no Brasil, atuando dentro da Fiocruz.

O evento contou ainda com apresentação do Coral FioCantos de Minas e com o lançamento do zine sobre acesso da população em situação de rua ao SUS, por Nicoly Vitorino e Priscilla Fraga, reafirmando o compromisso da instituição com a divulgação científica e a inclusão social.

Ao longo do dia, a Fiocruz Minas reafirmou que a ciência é construída por pessoas diversas, em diferentes tempos e contextos, e que ampliar a presença feminina é fortalecer a própria produção de conhecimento.