Celebrado em 22 de março, o Dia Mundial da Água terá em 2026 o tema “Água e Gênero”, definido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para chamar atenção para a relação entre acesso à água e equidade de gênero. A campanha destaca que mulheres e meninas são as mais afetadas pela falta de água potável e saneamento adequado, enfrentando sobrecarga de trabalho, riscos à saúde e limitações de oportunidades sociais e econômicas.
“A questão do gênero é central no debate sobre acesso à água e saneamento, pois mulheres e meninas são as mais penalizadas quando esses serviços não são oferecidos adequadamente. Na maioria das vezes, são elas que ficam responsáveis por manter a casa limpa e, quando não há água disponível, precisam buscá-la em outros lugares, perdendo tempo que poderia ser dedicado aos estudos ou ao trabalho remunerado”, explica o pesquisador da Fiocruz Minas Léo Heller, líder do grupo Políticas Públicas e Direitos Humanos à Água e ao Saneamento.
Segundo Heller, os desafios vão além da sobrecarga de tarefas domésticas. Mulheres e meninas também enfrentam estresse psicológico provocado pelo medo de violência sexual ou de ataques de animais, como cobras e mosquitos, ao transportar a água. Esses riscos se intensificam em locais sem banheiros residenciais, obrigando as pessoas a urinar e defecar ao ar livre ou a utilizarem banheiros coletivos distantes.
“Essa sobrecarga se torna ainda maior quando há múltiplas vulnerabilidades. Mulheres deficientes ou de baixa renda enfrentam barreiras adicionais, e pessoas transgêneras também podem ser desproporcionalmente afetadas, já que a maioria dos espaços públicos possui instalações separadas pelo sexo biológico”, destaca.
O pesquisador enfatiza que o acesso adequado à água e ao saneamento não deve se limitar a residências. “Escolas, hospitais, prisões e espaços públicos também precisam oferecer água e instalações sanitárias adequadas. Quando esses espaços não garantem privacidade e acesso adequado, quem mais sofre são mulheres, meninas e pessoas trans, impactando educação, vida social e saúde”, explica.
Privatização- Diante da sobrecarga enfrentada pela população feminina, Heller alerta para um agravante: a privatização dos serviços. Segundo o pesquisador, as desigualdades de gênero se tornam ainda mais difíceis de serem enfrentadas, uma vez que a privatização tende a priorizar lucros em vez de garantir acesso universal.
Antes de 2020, menos de 10% da população brasileira era atendida por empresas privadas de saneamento. Com a aprovação da reforma no Marco Legal do Saneamento, esse número já supera 50%, e a tendência é continuar crescendo nos próximos anos. Minas Gerais, por exemplo, está caminhando rapidamente nesse processo.
Heller ressalta ainda a concentração do setor: apenas cinco empresas respondem pelo fornecimento dos serviços a 92% da população atendida pelo setor privado. Tais corporações são, muitas vezes, controladas por fundos de investimento internacionais cujo objetivo é maximizar a rentabilidade, e não necessariamente garantir serviços adequados. “O foco deixa de ser atender às necessidades da população e passa a ser gerar lucro para investidores. Subsídios cruzados, que usam recursos de áreas mais ricas para apoiar regiões carentes, desaparecem. Isso afeta diretamente mulheres e meninas, tornando ainda mais difícil assegurar equidade de gênero”, explica.
O pesquisador destaca que o Brasil segue um caminho único no mundo ao avançar rapidamente na privatização sem considerar experiências negativas de outros países. Argentina, Bolívia e Alemanha enfrentaram uma série de problemas, e na França diversos programas de saneamento foram cancelados. Na Inglaterra, onde os serviços foram totalmente privatizados no final dos anos 1980, vêm surgindo sérias denúncias sobre falhas no tratamento de esgoto e na gestão ambiental. “Em muitos lugares, problemas simples, como uma bomba parada em uma estação de tratamento, levam horas para serem corrigidos, permitindo que esgoto seja lançado nos rios e mares. É um cenário preocupante e que deve servir de alerta para o futuro da prestação desses serviços no Brasil”, diz Heller.
Conforme o pesquisador, a experiência desses países mostra que a privatização torna a universalização do acesso à água e ao saneamento ainda mais difícil. “No médio e longo prazo, tarifas aumentam, a qualidade do serviço decai e a regulação enfrenta dificuldades para atuar. Tudo isso impacta diretamente a vida das pessoas com mais vulnerabilidades”, destaca.
Apesar da gravidade do cenário, Heller é cético quanto à reversão desse processo. “Privatizações com contratos de 35 anos são muito custosas para reverter. Inicialmente, há investimentos que dão a impressão de eficiência, mas, no médio e longo prazo, os problemas começam a aparecer. Não tenho dúvidas de que o Brasil vai se arrepender de ter seguido esse caminho”, afirma.
Saúde e outros direitos humanos- O impacto da falta de água e saneamento na saúde é direto e amplo. “Doenças diarreicas, arboviroses, helmintoses, intoxicações químicas e até resistência antimicrobiana estão relacionadas à inadequação desses serviços”, afirma Heller, lembrando que estudos indicam que, com acesso universal, até 50% das diarreias infantis poderiam ser prevenidas.
O pesquisador destaca que mulheres enfrentam efeitos adicionais: segurar a urina por longos períodos ou reduzir a ingestão de líquidos devido à falta de banheiros adequados aumenta o risco de infecções urinárias e renais.
De acordo com o pesquisador, para além da saúde, garantir acesso à água é fundamental para assegurar outros direitos humanos interdependentes, como educação, moradia e ambiente seguro. “Sem água adequada, direitos sociais e econômicos permanecem ameaçados”, afirma.
Texto: Keila Maia
Imagem gerada por Inteligência Artificial