Estudo propõe novo indicador para auxiliar na avaliação da cobertura vacinal

Uma nova metodologia proposta por pesquisadores da Fiocruz Minas pode aprimorar a forma como a cobertura vacinal é avaliada no país, oferecendo uma alternativa mais simples, integrada e de fácil interpretação para subsidiar a tomada de decisão em saúde pública. O estudo, publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, apresenta um indicador baseado na razão entre o número de doses aplicadas e o número mínimo de doses que devem ser administradas para que se atinja a cobertura vacinal preconizada pelo Ministério da Saúde.

Tradicionalmente, a cobertura vacinal é calculada a partir de uma taxa que relaciona o número de doses aplicadas à população-alvo, geralmente estimada com base em dados demográficos. Embora amplamente utilizado, esse modelo apresenta limitações, especialmente por depender da combinação de diferentes sistemas de informação e por exigir comparação posterior com as metas específicas de cada vacina. Na metodologia proposta, essa interpretação é incorporada ao próprio indicador: em vez de comparar doses com o total de crianças, o cálculo considera o número mínimo de doses necessário para atingir a meta. Assim, valores abaixo de 1 indicam diretamente que a cobertura vacinal está aquém do esperado.

De acordo com a pesquisadora Taynãna Simões, uma das autoras do estudo, a nova metodologia busca superar essas limitações ao propor um indicador que já incorpora, em sua própria estrutura, a meta mínima de cobertura. “A gente propôs essa nova metodologia, que é uma razão de doses. Além de facilitar o tratamento estatístico, porque trabalhamos com uma proporção mais adequada para modelos de contagem, ela já incorpora a meta mínima preconizada pelo Ministério da Saúde”, explica.

Na prática, o indicador compara o número de doses efetivamente aplicadas com o número mínimo necessário para garantir a imunização da população-alvo. “Quando essa razão é inferior a 1, isso indica que a cobertura vacinal está abaixo do esperado. Se eu tenho só a cobertura vacinal, preciso olhar e ainda comparar com a meta de cada vacina. Com o novo indicador, isso já está embutido. Se a razão for menor que 1, significa que a cobertura está abaixo do mínimo esperado”, afirma a pesquisadora.

Outro diferencial da proposta é o uso exclusivo de dados do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), o que reduz a dependência de estimativas populacionais provenientes de outras bases e minimiza possíveis inconsistências. A metodologia também permite análises em diferentes escalas territoriais, inclusive em níveis mais desagregados, em que nem sempre há disponibilidade de dados completos para o cálculo tradicional da cobertura vacinal.

Para demonstrar a aplicabilidade do indicador, os pesquisadores analisaram dados das capitais brasileiras no período de 2010 a 2021, considerando todas as vacinas do calendário básico infantil. A análise evidenciou não apenas a tendência de queda das coberturas vacinais ao longo dos anos, mas também importantes desigualdades regionais e temporais. “A gente consegue medir esse indicador em cada capital e ver ao longo do tempo o que acontece. Em que momento ele ficou menor que 1, em quais locais. Isso ajuda a mostrar para o programa de imunizações onde está o problema e quando ele começou”, destaca Simões.

Os resultados indicam que a redução das coberturas vacinais se intensificou a partir de meados da década passada, com maior impacto em regiões historicamente mais vulneráveis, como Norte e Nordeste, além de agravamento nos anos mais recentes, especialmente durante a pandemia de Covid-19. Esse cenário reforça a importância de ferramentas que permitam identificar, com maior precisão, os territórios e períodos mais críticos.

Segundo a pesquisadora, um dos principais potenciais da nova metodologia está na capacidade de orientar ações mais direcionadas. “Esse olhar do espaço e do tempo mostra que as ações não podem ser iguais em todo o território. Elas precisam ser diferenciadas e levar em conta as desigualdades sociais”, afirma.

É importante salientar que a proposta, no entanto, não substitui o indicador tradicional, mas se apresenta como uma ferramenta complementar para a análise e o monitoramento das coberturas vacinais. “A cobertura vacinal não é só um indicador, mas representa uma proteção coletiva. Uma população com alta cobertura caracteriza um menor risco de emergência e reemergência de doenças imunopreveníveis”, destaca a pesquisadora.