A Fiocruz Minas e a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) realizaram, nessa terça-feira (31/3), o lançamento do curso de Formação em Toxicologia Aplicada a Metais no Estado de Minas Gerais. A formação, voltada ao fortalecimento da atuação do Sistema Único de Saúde (SUS), foi desenvolvida em parceria com o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Campus Virtual (VPEIC/Fiocruz) e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), tendo como foco a qualificação de profissionais para lidar com agravos relacionados à contaminação por metais.
A abertura do evento reuniu representantes de diferentes instituições e destacou o caráter estratégico da iniciativa diante dos desafios impostos pelos impactos da atividade mineradora na saúde e no meio ambiente. A diretora da Fiocruz Minas, Cristiana Brito, ressaltou o longo processo de construção do curso, iniciado ainda no contexto dos desastres envolvendo barragens no estado. Segundo ela, os resultados de estudos realizados após o rompimento em Brumadinho reforçaram a necessidade de ampliar a capacidade do SUS para lidar com esse tipo de agravo.
Cristiana lembrou que a pandemia de Covid-19 impactou o cronograma da iniciativa, mas celebrou a conclusão da etapa de desenvolvimento. Ela também enfatizou o papel do Campus Virtual Fiocruz na formação de profissionais e agradeceu o trabalho coletivo envolvido na construção do curso. “Nosso papel é identificar lacunas e atuar para melhorar a saúde da população. Esperamos que essa formação gere frutos e fortaleça ainda mais a atuação integrada entre as instituições”, afirmou.
O subsecretário de Vigilância em Saúde da SES-MG, Eduardo Campos Prosdocimi, destacou que o lançamento representa a concretização de uma demanda construída junto aos territórios. Ele lembrou que Minas Gerais é um estado fortemente marcado pela atividade mineradora, o que impõe desafios específicos para a saúde pública. “É nosso dever reconhecer que esse desenvolvimento traz problemas importantes, especialmente no que diz respeito à saúde das populações expostas”, afirmou.
Segundo ele, a demanda por capacitação em toxicologia surgiu de profissionais e gestores que atuam diretamente nos municípios impactados. O curso, de acordo com o subsecretário, foi estruturado a partir de evidências científicas, protocolos do Ministério da Saúde e experiências acumuladas em campo, com destaque para Brumadinho. “Foi um processo desafiador, mas extremamente necessário que hoje se traduz em uma entrega concreta. Seguimos firmes no compromisso de qualificar os profissionais, proteger a vida e fortalecer o SUS”, disse.
A subsecretária de Redes de Atenção à Saúde da SES-MG, Camila Moreira de Castro, destacou que o tema ainda representa um campo em construção no âmbito assistencial. “A assistência é um terreno que ainda estamos explorando, seja na definição de exames, tratamento ou no cuidado em saúde mental. É um processo em construção, que exige atuação em rede”, afirmou.
Representando a Opas, Priscila Campos Bueno destacou a importância da cooperação técnica internacional e do fortalecimento da atuação antecipada do setor saúde. “É fundamental atuar para garantir a proteção da população e promover ambientes mais seguros. Essa parceria com a Fiocruz e a SES-MG é estratégica e deve ser ampliada”, afirmou.
O evento contou com a presença do coordenador de Vigilância em Saúde do Espírito Santo, Roberto Laperriere, que agradeceu o convite e parabenizou Minas Gerais pela iniciativa. Ele lembrou que, embora o Espírito Santo não seja um estado minerador, foi fortemente impactado pelo desastre de Mariana, em 2015 e, dessa forma, a experiência mineira pode contribuir para o fortalecimento das ações no estado capixaba. “Queremos aprender com essa iniciativa e também utilizá-la como referência para avançar em nossos protocolos e ações”, afirmou.
Mesa redonda- Após a abertura, foi realizada a mesa Saúde, meio ambiente e desastres: a importância de discutir a contaminação e intoxicação por metais no cenário atual. A médica Jandira Maciel, coordenadora da Serviço Especial em Saúde dos Trabalhadores do Hospital das Clínicas da UFMG, trouxe para o debate a perspectiva da saúde do trabalhador, destacando a necessidade de considerar esse grupo nas estratégias de vigilância e cuidado. Ela chamou atenção para a impossibilidade de dissociar trabalho e vida, ressaltando que a exposição a contaminantes está diretamente relacionada aos territórios e aos processos produtivos. Jandira também destacou que compreender como o trabalho se organiza é essencial para identificar riscos e orientar ações no SUS.
A professora enfatizou ainda os desafios enfrentados pelos profissionais de saúde, especialmente na identificação das exposições e na utilização de instrumentos como a lista de doenças relacionadas ao trabalho. Para ela, a qualificação dos profissionais é fundamental. “Esse curso abre uma porta importante para o conhecimento e para o fortalecimento da vigilância e do cuidado”, afirmou.
O pesquisador da Fiocruz Minas Sérgio Peixoto apresentou o Projeto Saúde Brumadinho, destacando sua relevância como uma das maiores iniciativas de biomonitoramento já realizadas no país. Ele iniciou sua fala lembrando as vítimas do desastre e ressaltou a complexidade de se estudar os múltiplos impactos de um evento dessa magnitude, que envolve dimensões ambientais, sociais e sanitárias.
Segundo Sérgio, o projeto foi estruturado a partir de uma demanda do Ministério da Saúde para monitorar, ao longo do tempo, a saúde das populações expostas. A iniciativa integra um programa de ações que inclui tanto o acompanhamento de adultos e adolescentes quanto de crianças, por meio de estudos específicos. “Desde o início, entendemos que seria necessário olhar para o município como um todo, considerando diferentes níveis de exposição e realidades territoriais”, explicou.
Entre os principais achados, o pesquisador destacou a identificação de níveis elevados de metais como arsênio, manganês e chumbo em determinados períodos, com redução de alguns desses indicadores ao longo do tempo. No entanto, ele chamou atenção para o fato de que a exposição não se restringe às áreas diretamente atingidas pela lama. “Quando analisamos o conjunto do município, não encontramos diferenças tão marcantes entre regiões, o que nos leva a considerar o papel do processo produtivo e do território como um todo”, afirmou, ressaltando que essa ainda é uma hipótese em investigação.
Sérgio também apresentou dados sobre o perfil epidemiológico da população, que indicam aumento de doenças respiratórias, elevada carga de fatores de risco cardiovascular e manutenção de condições relacionadas à saúde mental, como a depressão. Segundo ele, também houve crescimento significativo na demanda por atendimentos de saúde, evidenciando a sobrecarga dos serviços.
O pesquisador ressaltou ainda que um dos grandes desafios é transformar os dados produzidos em ações concretas e políticas públicas. Segundo ele, a expectativa da população por respostas é alta, o que reforça a importância de iniciativas como o curso lançado. “Esse tipo de formação e a construção de protocolos são fundamentais para dar retorno à sociedade e apoiar a tomada de decisão no sistema de saúde”, concluiu.
A professora Leiliane Coelho André, do Departamento de Análises Clínicas e Toxicologia da UFMG, destacou a dimensão estrutural dos problemas associados à mineração e a necessidade de transformar evidências científicas em políticas públicas. Segundo ela, as tragédias revelam um modelo de produção que ainda persiste e que precisa ser enfrentado.
A pesquisadora também apresentou a Rede de Pesquisa em Saúde do Vale do Rio Doce, estruturada a partir de acordo de cooperação técnica entre o Ministério da Saúde e a Fiocruz. A iniciativa prevê a realização de estudos em 48 municípios dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo ao longo de 15 anos, com foco na avaliação dos impactos à saúde decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. “A proposta é produzir evidências que subsidiem ações de vigilância, assistência e formulação de políticas públicas, além de fortalecer a capacidade de resposta do SUS diante de populações expostas a contaminantes ambientais”, destacou Leiliane, que coordena o eixo de avaliação toxicológica da rede.
Na parte da tarde, a oficial nacional em saúde ambiental e saúde do trabalhador da Opas, Priscila Campos Bueno, falou sobre a cooperação técnica determinantes ambientais da saúde e segurança química- OPAS-OMS. Ela apresentou um histórico da atuação da Opas, mostrando as principais ações da Coordenação de Eliminação, Prevenção e controle de Doenças Transmissíveis e Determinantes da Saúde (CDE), área que tem atuação transversal. Priscila destacou que o curso em toxicologia representa um marco e reforçou a importância da capacitação diante dos desafios globais relacionados aos determinantes ambientais da saúde.
Curso– Dando início à explanação sobre o Curso de Formação em Toxicologia Aplicada a Metais no Estado de Minas Gerais, houve uma apresentação do Campus Virtual, plataforma em que o curso será disponibilizado. A coordenadora Ana Furniel falou sobre o papel do Campus Virtual na formação de profissionais para o SUS, destacando que a plataforma reúne cerca de 1800 cursos e conta com mais um milhão de alunos, consolidando-se como uma importante estratégia de educação permanente. Além de ser a plataforma que abriga o curso, o Campus Virtual participou de todo o seu desenvolvimento.
A coordenadora do Núcleo de Cooperação com Organismos Nacionais e Internacionais da SES-MG, Karina Maia Lage, destacou o processo de construção do curso e a articulação entre as instituições parceiras. Segundo ela, a iniciativa é resultado de um percurso que envolveu desde os impactos dos desastres até a produção de evidências científicas e a definição de estratégias de resposta no SUS.
Karina explicou que a proposta da formação está estruturada em quatro eixos: reconhecimento da exposição; prevenção e comunicação; diagnóstico e manejo; e vigilância epidemiológica. A formação tem como público prioritário profissionais da Vigilância e da Atenção à Saúde que atuam em municípios com atividade minerária. “É um trabalho construído em parceria, que busca qualificar os profissionais e fortalecer a resposta do SUS, especialmente nos territórios mais afetados”, afirmou.
A coordenadora de Vigilância e Serviços de Referência da Fiocruz Minas, Tatiana Mingote, que esteve à frente da elaboração do conteúdo, detalhou a estrutura do curso, que possui carga horária de 120 horas e é dividido em três módulos. Segundo ela, a proposta é oferecer uma formação consistente, com percurso pedagógico acessível, mesmo diante da complexidade do tema. “A ideia é dar um subsídio inicial para que os profissionais possam atuar com mais segurança, entendendo que esse é um campo em constante construção”, afirmou.
De acordo com Tatiana, o primeiro módulo aborda as bases conceituais e políticas da Vigilância em Saúde, incluindo temas como a trajetória da vigilância em âmbito global e no Brasil, a Política Nacional de Vigilância em Saúde, o funcionamento do sistema nacional e as emergências em saúde pública. Já o segundo módulo é dedicado aos conceitos fundamentais da toxicologia, com foco na caracterização das exposições e na qualificação das ações em saúde. Entre os conteúdos estão toxicocinética e toxicodinâmica, além da abordagem de contaminantes químicos relacionados a medicamentos, alimentos, agrotóxicos e ao ambiente de trabalho.
O terceiro módulo concentra-se na toxicologia clínica aplicada aos metais e é considerado o mais denso da formação. Nele, são abordados aspectos como a identificação de exposições, a avaliação inicial de pacientes potencialmente intoxicados, a interpretação de exames laboratoriais, a vigilância epidemiológica e a comunicação de riscos. O conteúdo também incorpora a discussão sobre determinantes sociais da saúde, ampliando a compreensão dos contextos em que ocorrem as exposições.
Tatiana destacou ainda que o curso é autoinstrucional, permitindo que os participantes organizem seu próprio ritmo de aprendizagem, e que os módulos podem ser realizados de forma independente, embora a certificação exija a conclusão completa. Segundo ela, a construção da formação envolveu um esforço coletivo de especialistas e instituições, com o objetivo de contribuir para o fortalecimento da atuação do SUS frente aos desafios relacionados à exposição a metais. Antes de finalizar, ela destacou a parceria com o pesquisador Enrico Saggioro, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), e agradeceu o apoio recebido pela direção do IRR, entre 2021 e 2025, bem como a atual gestão.
Encerrando o evento, foi apresentado o Protocolo de Assistência à Saúde nos casos de exposição a substâncias químicas decorrentes da atividade minerária no SUS. A enfermeira Gabriela Nunes apresentou a linha do tempo de construção do documento, iniciada em 2023, destacando a articulação entre diferentes áreas.
Em seguida, a médica toxicologista Natália Dias do Nascimento detalhou o protocolo, que tem como objetivo orientar gestores e profissionais de saúde, garantir a efetividade da assistência e reduzir complicações associadas à intoxicação por metais.
Segundo ela, o documento está estruturado em três partes, abordando desde a avaliação inicial do paciente até a organização do cuidado no SUS. “O protocolo busca qualificar a assistência e apoiar a tomada de decisão, além de contribuir para o acompanhamento das populações expostas”, afirmou.
Texto: Keila Maia
Foto: Sílvio Bento