As celebrações dos 125 anos da Fiocruz e dos 70 anos da Fiocruz Minas tiveram início na última terça-feira (26/8), com uma homenagem à pesquisadora Alda Lima Falcão, que completaria 100 anos em 2025. Reconhecida como uma das mais importantes cientistas da história da instituição, Alda deixou um legado que ultrapassa o campo da pesquisa e se projeta no exemplo de dedicação, pioneirismo e compromisso com a saúde pública. O evento reuniu familiares, amigos, pesquisadores e aposentados, que se emocionaram com as memórias compartilhadas e a força simbólica da celebração. Flores foram entregues à neta de Alda, Thaís Falcão, abrindo a programação que marca oficialmente o calendário comemorativo.
Na abertura, a diretora da Fiocruz Minas, Cristiana Brito, ressaltou a importância de iniciar as comemorações homenageando a trajetória de Alda. “É com grande alegria que a gente dá início a esse evento tão significativo, que marca o centenário de nascimento da pesquisadora Alda Lima Falcão, uma das figuras mais emblemáticas da história científica da Fiocruz. Iniciar essas comemorações homenageando a trajetória de Alda é reconhecer as raízes que sustentam o nosso presente”, afirmou. Cristiana destacou ainda que a celebração une duas datas marcantes: os 70 anos da unidade mineira e os 125 anos da Fiocruz, reafirmando “o compromisso histórico da instituição com a ciência, a saúde pública e a justiça social no Brasil”.
Entre os depoimentos mais emocionantes, esteve o do pesquisador José Dilermando Andrade Filho, que iniciou sua trajetória científica em 1992 como aluno de iniciação científica, orientado por Alda. Ele conviveu diariamente com a pesquisadora e trouxe ao público histórias que revelam seu lado humano, curioso e apaixonado pela entomologia.
Dilermando relembrou como Alda, ainda adolescente no interior do Ceará, iniciou sua vida científica em 1939, lavando vidrarias em um laboratório de malária. A curiosidade natural e a insistência em aprender a levariam a se tornar uma das maiores referências mundiais em flebotomíneos. “Ela começou lavando vidraria, mas era muito curiosa. Queria aprender sobre os insetos, via os pesquisadores trabalhando e também queria trabalhar. Com o tempo, tornou-se pioneira no estudo dos flebotomíneos, insistindo em explorar um campo que poucos se interessavam e que hoje é central nos estudos de leishmaniose”, contou.
Dilermando também compartilhou detalhes pessoais que marcaram a convivência com a cientista. O batom vermelho, o perfume característico que permanecia nos corredores, as sacolas cheias de materiais que carregava diariamente e a generosidade com os alunos foram lembradas durante a apresentação.
“Ela era extremamente vaidosa, bondosa e generosa. Tinha orgulho dos frutos de seus alunos e vibrava com cada conquista. Guardava tudo sobre sua carreira, cartas, artigos, homenagens”, disse.
O pesquisador lembrou ainda que Alda publicou 100 artigos científicos, descreveu dezenas de novas espécies, criou uma das maiores coleções de flebotomíneos das Américas e, mesmo aposentada em 1994, continuou ativa, ajudando na criação do Ambulatório de Leishmanioses da Fiocruz Minas.
Outros colegas também prestaram suas homenagens. Naftale Katz, pesquisador da instituição há seis décadas, recordou o impacto da presença de Alda nos corredores da Faculdade de Medicina e ressaltou sua contribuição fundamental para a consolidação da entomologia no país. “Toda e qualquer homenagem que foi ou será prestada a ela é ainda pouco diante do muito que fez pela ciência, pelas pesquisas e pela formação de pessoas”, afirmou.
Já a pesquisadora Ana Rabello destacou a relevância da dedicação de Alda para o campo assistencial, lembrando os 30 anos do Ambulatório Alda Lima Falcão, que leva o nome da cientista. “Escolhemos homenageá-la porque sua trajetória é um exemplo de amor à ciência e dedicação ao coletivo”, explicou.
O coordenador do Núcleo de Memória da Fiocruz Minas, Roberto Sena Rocha, apresentou o Catálogo de Documentos da Produção Científica de Alda Lima Falcão, que reúne e descreve a coleção de materiais da pesquisadora. A obra dispõe desde artigos científicos de autoria de Alda até cadernos de estudo e registros de flebotomíneos, oferecendo dados fundamentais sobre sua trajetória profissional e rede de interações científicas em um período em que poucas mulheres alcançavam espaço como pesquisadoras. Ao todo, estão descritos 99 artigos, que vão da primeira publicação, em que caracterizou e nomeou uma nova espécie de flebotomíneo (Phlebotomus renei), até seu último trabalho, de 2012. Mais do que um repositório de informações, o catálogo busca dar visibilidade e valorizar o legado científico de Alda Falcão, tornando-se uma ferramenta de pesquisa para estudiosos de sua área de atuação.
“Esse é o primeiro catálogo elaborado pela nossa equipe do Núcleo de Memória e vai ficar disponível em formato de e-book, com acesso aberto a todos. Ele reúne a produção científica de Alda Lima Falcão de forma organizada, com índices que facilitam a consulta, e busca preservar e dar visibilidade ao legado dessa pesquisadora tão importante para a nossa instituição e para a ciência brasileira”, afirmou. O trabalho contou com a elaboração de arquivistas e historiadores, além de projeto gráfico pioneiro, e também prevê a organização de outros documentos, como cartas, fotografias e desenhos técnicos, que serão incorporados a um inventário ainda em andamento. “O catálogo representa um esforço de preservação e difusão da memória científica da instituição, garantindo que a contribuição de Alda Lima Falcão permaneça acessível às futuras gerações”, afirmou o coordenador, encerrando o primeiro dia de comemorações pelos 70 anos da Fiocruz Minas.