Encerrando a semana de comemorações pelo aniversário de 70 anos, a Fiocruz Minas realizou, nessa quinta-feira (28), a entrega do título de Pesquisadora Emérita à médica e epidemiologista Maria Fernanda Furtado de Lima e Costa, em reconhecimento à sua trajetória científica e às contribuições à saúde pública brasileira. A cerimônia aconteceu no auditório da unidade, com a presença do presidente da Fiocruz, Mario Moreira, de membros do Conselho Deliberativo da Fundação, familiares, colegas e amigos da pesquisadora emérita.
A homenagem teve início com a execução do Hino Nacional e a leitura da resolução aprovada pelo Conselho Deliberativo da Fiocruz, que confere o título de pesquisador emérito a profissionais de destaque em suas áreas de atuação. Em seguida, a diretora da Fiocruz Minas, Cristiana Brito, abriu os pronunciamentos, ressaltando a importância do título: “É uma honra estarmos reunidos aqui para fazer essa entrega à nossa querida Maria Fernanda. Esta celebração marca os 70 anos da unidade e é uma grande alegria contar com a presença de membros do CD, familiares, amigos e da comunidade do René Rachou, tanto presencialmente quanto de forma virtual. Agradeço a todas as pessoas por estarem aqui”, disse.
O pesquisador Roberto Sena relembrou sua convivência com a homenageada e destacou a relevância do título. “É com muito prazer e honra que saúdo a Fernanda, a nova Pesquisadora Emérita da Fiocruz, com quem tive a oportunidade, em diferentes momentos da minha vida, de compartilhar experiência e amizade. Trabalhamos juntos no início de nossas carreiras e pude acompanhar de perto sua dedicação e brilhantismo. Gostaria de destacar que a obtenção desse reconhecimento é criteriosa e utilizada com muita moderação, o que valoriza ainda mais esse título. Agora, Fernanda, você faz parte de um grupo de cientistas reconhecidos pela Fiocruz por suas importantes contribuições à ciência e à cultura do país”, disse.
Roberto Sena lembrou que a pesquisadora se junta a nomes históricos do Instituto René Rachou, como Giovanni Gazzinelli, Alda Lima Falcão, João Carlos Pinto Dias, Naftale Katz e Paulo Marcos Zech Coelho, todos também pesquisadores eméritos. Em seguida, destacou a importância de sua trajetória acadêmica, que começou na UFMG e teve forte vínculo com a Fiocruz desde a pós-graduação. “Fernanda realizou mestrado e doutorado em Medicina Tropical na UFMG, ambos desenvolvidos aqui no René Rachou, sob a orientação do professor Naftale Katz. Seu projeto de doutorado sobre esquistossomose, realizado em Comercinho, revelou a associação entre condições socioeconômicas e a forma grave da doença, mostrando que a prevenção dependia, acima de tudo, do acesso a água e esgoto tratados. Esse trabalho consolidou seu interesse pela epidemiologia e pela medicina social.”
O pesquisador também ressaltou os impactos de sua carreira internacional e da liderança em projetos no Brasil. “Após o pós-doutorado na Johns Hopkins e na London School of Hygiene and Tropical Medicine, Fernanda voltou ao Brasil decidida a fortalecer os estudos sobre envelhecimento, até então pouco explorados no país. Coordenou o estudo de Bambuí, que abriu caminho para pesquisas de base populacional sobre a saúde dos idosos, formando inúmeros pesquisadores e criando um banco de dados e amostras biológicas de enorme valor científico. Esse projeto foi o embrião para iniciativas ainda maiores, como o ELSI-Brasil e a Epidemiologia Genômica de Doenças Complexas.”
Para ele, mais do que os números e publicações, o legado de Maria Fernanda está na forma como uniu ciência e compromisso social. “Sua trajetória mostra que a saúde precisa ser compreendida como fenômeno social, além do indivíduo, envolvendo determinantes como escolaridade, renda, integração familiar, gênero e etnia. Mais do que enumerar realizações, hoje celebramos a força de uma vida dedicada à construção do conhecimento e à formação de novas gerações de cientistas.”
O presidente da Fiocruz, Mário Moreira, lembrou que Maria Fernanda é a sexta pesquisadora da Fiocruz Minas a receber o título e ressaltou a necessidade de maior representatividade feminina entre os homenageados. “Dos 28 títulos já concedidos pela instituição, apenas nove foram a mulheres. É preciso equilibrar essa equação e valorizar ainda mais o trabalho das nossas cientistas”, destacou. Em seguida, o presidente entregou o diploma que declara a cientista Pesquisadora Emérita da Fiocruz.
Agradecimentos- Maria Fernanda abriu o agradecimento com espontaneidade. “Gente, eu não sabia que eu tinha de falar nada, eu não preparei absolutamente nada. Eu não esperava essa homenagem, realmente foi uma surpresa enorme para mim. Eu estou emocionada.”
A pesquisadora fez questão de reconhecer a influência do professor Naftale Katz em sua formação. “Na realidade, tudo na minha vida profissional, como pesquisadora, veio do Naftale. Fui orientanda dele no aperfeiçoamento, no mestrado e no doutorado. Quem criou o laboratório de epidemiologia aqui foi ele. Então, eu tenho uma dívida eterna com o Naftale.”
A homenageada também sublinhou o vínculo com a instituição. “Eu devo ao René Rachou tudo. Devo muito à universidade também, mas devo muito aqui, muito. Aqui tem um espírito científico muito forte.”
Ela relatou ainda a criação de programas de pós-graduação e a defesa de um curso próprio na unidade: “Eu falei: a gente tem que criar um programa aqui. E criamos o Programa de Ciências da Saúde… Depois, houve a necessidade de criar um programa de Saúde Coletiva aqui dentro.”
A pesquisadora também falou de sua paixão pelo Estudo Longitudinal de Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil), o maior levantamento nacional sobre envelhecimento, que segue em andamento sob sua liderança, mesmo após a aposentadoria. “É um estudo que acontece em vários países do mundo, e eu sou apaixonada pelo Elsi. Aqui, o estudo é conduzido em 70 municípios, e a cada três anos a gente volta a campo”, contou.
Ao encerrar sua fala, Maria Fernanda resumiu a emoção do momento. “Agradeço muito a vocês; eu não esperava, estou emocionada. Obrigada.”
Após os pronunciamentos, foi exibido um vídeo com depoimentos de pessoas que trabalharam com Maria Fernanda. Em nome dos amigos, o pesquisador Sérgio Peixoto entregou flores à pesquisadora emérita.