Maria Fernanda Furtado de Lima e Costa

 

 Fonte: Faculdade de Medicina UFMG

 

 

De acordo com o Censo realizado no Brasil em 2022, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), “o total de pessoas com 65 anos ou mais no país chegou a 10,9% da população, com alta de 57,4% frente a 2010 […]. Já a população idosa com 60 anos ou mais de idade chegou a 15,6%, um aumento de 56,0% em relação a 2010”.[1] Esses números revelam o rápido e constante processo de envelhecimento da população brasileira, fato que coloca diversos desafios para o Estado e a sociedade.

 

Quando se menciona estudos sobre o envelhecimento, a pesquisadora Maria Fernanda Furtado Lima e Costa, da Fiocruz Minas, é uma das maiores especialistas no tema, reconhecida nacional e internacionalmente. Natural de Barbacena/MG, ela mudou-se para Belo Horizonte ainda jovem, para estudar no Colégio Universitário da UFMG. O educandário ofertava disciplinas clássicas e optativas (como história da arte e cinema), e também possuía um laboratório de biologia, onde os alunos realizavam experimentos. Maria Fernanda considera que o ensino proporcionado pelo colégio abriu seus horizontes e deu-lhe confiança para avançar em outros projetos intelectuais.[2]

 

No ano de 1976 formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da UFMG. Ainda como graduanda, ela foi convidada pelos pesquisadores Naftale Katz e João Carlos Pinto Dias para participar de projeto que estudava a reinfecção da esquistossomose em Belo Horizonte. Nesse momento Maria Fernanda apaixonou-se pela pesquisa e seguiu carreira acadêmica, tendo ingressado como professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da UFMG, por concurso, em 1977. Realizou mestrado e doutorado em Medicina Tropical e Infectologia, na mesma instituição, respectivamente em 1980 e 1984.[3] Segundo Maria Fernanda, como naquele período o Instituto René Rachou (IRR) não possuía Programa de Pós-Graduação, ela era oficialmente vinculada à UFMG. Porém, a pesquisa em parasitologia na Fiocruz Minas era uma área fortíssima, de modo que seus estudos em esquistossomose experimental e epidemiologia foram efetuados no IRR. Segundo a pesquisadora, a instituição fornecia melhor estrutura e recursos financeiros.

 

Ao longo do doutorado, Maria Fernanda teve mais uma experiência transformadora. Seu objetivo era efetuar estudo epidemiológico sobre esquistossomose em área endêmica, na cidade de Comercinho, nordeste de Minas Gerais, local com grande prevalência da forma grave da doença. Em parceria com o médico Roberto Sena Rocha, do IRR, realizaram levantamento de base populacional. O resultado apontou uma clara explicação socioeconômica para o agravo, pois os habitantes da periferia, que moravam próximos ao riacho e usavam dessa água, tinham incidência muito maior de casos graves do que as pessoas que residiam na área central e saneada da cidade. Seu interesse pela medicina social se fortaleceu ali, pois concluiu que mesmo o tratamento contra a esquistossomose sendo importante para reduzir a carga parasitária, a prevenção era o elemento principal, demandando acesso a água e esgoto tratados para toda a população.

 

Nesse interim eclodiu a epidemia de Aids no mundo, e a pesquisadora foi convidada pela UFMG para o enfrentamento da situação, tendo participado da criação de um ambulatório na universidade para atender esses pacientes. A FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), abriu edital para estudo da epidemiologia da doença no Brasil e Maria Fernanda foi coordenadora, sendo naquele momento o maior projeto de pesquisa com essa temática no país. Com o intuito de aprimorar sua formação em epidemiologia, ela realizou dois Pós-doutorados. O primeiro nos EUA, na Universidade Johns Hopkins (1987-1988), e o segundo na Inglaterra, na London School of Hygiene & Tropical Medicine, entre 1991 e 1992. De volta ao Brasil, Maria Fernanda comprometeu-se a coordenar a criação da Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFMG, que começou a funcionar em 1993.

 

Em Londres ela conheceu um grupo de pesquisa que estudava a epidemiologia do envelhecimento e percebeu a importância da área, até então sem estudos no Brasil. A FINEP apoiou o financiamento da ideia, mas a cidade de Belo Horizonte mostrou-se inviável como base, pois, pelo tamanho, demandava grande estrutura e expertise consolidada. Foi então que o diretor do IRR, Naftale Katz, sugeriu que o Posto Avançado de Pesquisas Emmanuel Dias, que funcionava na cidade de Bambuí/MG, fosse a base para pesquisa, a ser realizada com a população idosa da cidade. A solução foi ideal, pelo número de habitantes, cerca de 22 mil, e pelo fato de que a Fiocruz Minas manteria o financiamento a longo prazo. Criou-se na instituição, em 1993, sob a liderança da pesquisadora, o Laboratório de Epidemiologia e Antropologia Médica. Dali surgiram importantes contribuições para o conhecimento sobra saúde pública do país, como “o primeiro estudo prospectivo da saúde da população idosa no interior do Brasil; o primeiro diagnóstico de saúde da população idosa brasileira”.[4]

 

Sob coordenação de Maria Fernanda Lima e Costa, o “Projeto Bambuí: estudo longitudinal da saúde dos idosos de Bambuí”, iniciado em 1997 e finalizado em 2014, investigou a incidência e os determinantes de eventos em saúde da população idosa de baixa renda, resultando em diversas publicações e na realização de outras pesquisas sobre a saúde dos idosos em âmbito nacional. [5] Segundo a pesquisadora, o Posto tinha prestígio junto à população local, devido à sua longa história na cidade, o que facilitou bastante a abordagem das pessoas. A equipe principal era composta pelos pesquisadores Maria Elizabeth Uchoa, Josélia Oliveira Araújo Firmo e Henrique Guerra com atuação fundamental dos servidores do IRR atuantes no Posto.

 

O Projeto exigia a realização de exames de sangue constantes, por isso o IRR cedeu sua estrutura para a realização dos testes laboratoriais. Mais adiante decidiu-se que era necessário criar um banco de amostras biológicas, que mais tarde integraram o projeto Epigen-Brasil: epidemiologia genômica de doenças complexas em coortes brasileiras de base populacional, também coordenado por Maria Fernanda. Para ela, o Projeto desenvolvido em Bambuí é especial pelo pioneirismo, por realizar investigações concomitantes com morbidades como a doença de Chagas e pela abertura dos dados para a comunidade científica.

 

Em 1995 a pesquisadora passou em concurso para titular em epidemiologia na Fiocruz Minas. Antes disso, seu vínculo concomitante com o IRR e a UFMG era possível em razão de convênio entre as duas instituições. Maria Fernanda atuou na fundação dos Programas de Saúde Pública da UFMG e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do IRR. No ano de 2012 ela passou a coordenar o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros, função que exerce até hoje, tratando-se do maior estudo brasileiro sobre envelhecimento, contando com parceria internacional e participação de vários pesquisadores.

 

Maria Fernanda sempre ressalta a importância do Instituto René Rachou como apoiador de suas pesquisas, proporcionando um ambiente de valorização da ciência. Segundo ela, o IRR tem um papel fundamental na área da parasitologia, mas não só, tendo ampliado seu campo de atuação à medida que a própria Fiocruz se democratizou. Como docente, ela orientou dezenas de mestres e doutores, e considera a função de professor uma atividade positivamente desafiadora. Junto ao CNPq ela foi coordenadora do Comitê Assessor de Saúde Coletiva. Apesar de tantas conquistas, a pesquisadora ressalta como dificultador a misoginia no meio acadêmico e científico. Ela considera que esse quadro está melhorando devido, principalmente, à mudança de mentalidade institucional.

 

Na opinião de Maria Fernanda, sua maior contribuição no campo científico reside na área da epidemiologia do envelhecimento, que tem atraído cada vez mais pesquisadores devido à rápida transição demográfica ocorrida no Brasil. O maior interesse que une todos seus objetos de pesquisa (esquistossomose, Aids e envelhecimento) é a causa social, que proporciona uma visão macro sobre questões relacionadas à saúde e à doença. Por esse motivo, Maria Fernanda cita como a sua publicação científica de que tem mais orgulho, o estudo que comprova ser falsa a ideia de que a ancestralidade africana impactaria negativamente a cognição. Usando como base as amostras coletadas no estudo de Bambuí, ela pôde comprovar que a ancestralidade, qualquer que seja, não altera em nada a trajetória da função cognitiva. [6]

 

Maria Fernanda Lima e Costa, mesmo aposentada, continua ativa na pesquisa. Em 2005 recebeu a Medalha do Mérito da Saúde, concedida pelo Governo de Minas Gerais. Em 2021 ela foi incluída entre os pesquisadores mais citados no mundo, na lista publicada pela Elsevier BV-Stanford University. Em 2023 foi homenageada pelo Instituto René Rachou, pela sua importante contribuição no Posto Avançado de Pesquisas Emmanuel Dias.

 

Para ela, a área de envelhecimento é muito promissora, principalmente nos aspectos relacionados ao impacto desse processo na Previdência Social, na coleta de dados para subsidiar políticas públicas do SUS e na investigação dos marcadores inflamatórios do sistema imune no envelhecimento. Maria Fernanda afirma que, qualquer que seja o objeto de pesquisa, não é mais possível desconhecer a importância desses estudos. Certamente, como pioneira da área sobre envelhecimento no Brasil, a trajetória de Maria Fernanda Lima e Costa é uma grande inspiração para os estudiosos do tema. Em reconhecimento pela sua contribuição para a saúde pública nacional, ela recebeu, no ano de 2025, o título de Pesquisadora Emérita da Fiocruz.

 

 

Realização: Núcleo de Memória do Instituto René Rachou

[1] AGENCIA IBGE Notícias. Censo 2022: número de pessoas com 65 anos ou mais de idade cresceu 57,4% em 12 anos. Disponível em: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos>.

 

[2] COSTA, Maria Fernanda Furtado. Entrevista concedida à Natascha Ostos. Belo Horizonte, Instituto René Rachou, 31 out. 2023.

 

[3] COSTA, Maria Fernanda F.. Currículo lattes. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/7404029442077952>.

 

[4] FIOCRUZ MINAS. Centro de Pesquisas René Rachou – A Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais. Belo Horizonte: Fiocruz, 2000, p. 10-11.

 

[5] COSTA, Maria Fernanda F et al. The Bambuí health and ageing study (BHAS): methodological approach and preliminary results of a population-based cohort study of the elderly in Brazil. Rev. Saúde Pública, v. 34, n. 2, apr.  2000, p. 126-135; COSTA, Maria Fernanda F Lima e et al.  Projeto Bambuí: um estudo epidemiológico de características sociodemográficas, suporte social e indicadores de condição de saúde dos idosos em comparação aos adultos jovens. Inf. Epidemiol. Sus, v. 10, n. 4, dez.  2001, p. 160; LIMA E COSTA, M. F. F.BARRETO, S. M.FIRMO, J. O. A.; UCHOA, E.. Socioeconomic position and health in a population of Brazilian elderly: the Bambuí Health and Aging Study (BHAS). Panamerican Journal of Public Health, vol. 13, n. 6, 2003, p. 387-393; LIMA E COSTA, M. F. F.FIRMO, J. O. A.; UCHOA, E.. Cohort Profile: The Bambuı (Brazil) Cohort Study of Ageing. International Journal of Epidemiology, 2010, p. 1-6.

 

[6] LIMA-COSTA, M. F. et al. Genomic African and Native American Ancestry and 15-Year Cognitive Trajectory: Bambui Study, Brazil. Journal os the American Geriatrics Society, vol. 66, p. 1956-1962, 2018.